O que sobra da produção de azeite de oliva pode ganhar uma nova função e chegar à indústria cosmética como uma matéria-prima de alto valor. É a partir dessa proposta que a farmacêutica Simone Jacobus desenvolveu, em parceria com a Sol das Olivas, um projeto de aproveitamento do bagaço da azeitona por meio do conceito de upcycling — processo que transforma um subproduto em um novo material de maior valor agregado.
A ideia nasceu dentro do laboratório de pesquisa da Faculdade de Farmácia da UFRGS, durante um projeto de doutorado. Ao longo de quatro anos, foram realizados estudos e inúmeros testes para otimizar a extração dos antioxidantes presentes no bagaço. O objetivo era fazer com que a pesquisa acadêmica pudesse se transformar em um produto destinado ao mercado.
Segundo Simone, a proposta partiu da doutoranda responsável pelo trabalho, com a participação da professora Irene, orientadora e sócia da Nun, empresa que desenvolve a tecnologia, e da própria Simone, que já havia trabalhado com projetos de aproveitamento de outras biomassas durante seu doutorado.
A aproximação com a Sol das Olivas aconteceu por meio de contatos pessoais. Simone é de Novo Hamburgo e possui amigos em comum com os produtores. Em uma conversa sobre o projeto, surgiu a possibilidade da parceria.
Para a farmacêutica, a escolha da empresa também está relacionada ao rigor empregado na produção dos azeites. “Sabemos o rigor da produção deles e isso se traduz na qualidade do produto e também na qualidade do bagaço”, explica.

Mais de 30 compostos de interesse
O bagaço da azeitona apresenta uma composição química complexa. Nas pesquisas, foram identificados mais de 30 compostos com atividade biológica de interesse. De acordo com Simone, essa combinação de substâncias forma uma espécie de “assinatura fitoquímica” que confere ao material características multifuncionais.
Entre os efeitos estudados está a atividade antioxidante. Nos testes realizados, o bioativo apresentou ação antioxidante quatro vezes maior que a vitamina E, ingrediente já bastante utilizado na indústria cosmética.
As pesquisas também identificaram estímulo à renovação celular, com ação sobre queratinócitos e fibroblastos; efeito dermocalmante; e aumento da síntese de colágeno do tipo I, relacionado à firmeza da pele. “Em resumo, é ótimo para estimular a renovação da pele sem deixá-la sensível”, explica Simone. Segundo ela, essa característica pode ser especialmente interessante para peles sensíveis e para produtos destinados ao uso pós-depilação e pós-sol, além de formulações voltadas à firmeza e ao envelhecimento da pele.
Outro resultado considerado relevante pela pesquisadora foi a capacidade do Nunlive, nome dado ao bioativo desenvolvido a partir do bagaço, de estimular a produção de colágeno e, ao mesmo tempo, reduzir sua degradação por meio da ação sobre as sirtuínas.
Tecnologia para transformar resíduo em ingrediente
A transformação do bagaço em matéria-prima cosmética exige tecnologia e controle em todas as etapas. O processo começa com um protocolo específico de coleta e passa pela extração dos compostos de interesse, desenvolvida com técnicas consideradas ambientalmente amigáveis, utilizando solventes biodegradáveis e naturais.
Como o processo produtivo e a composição do nanocarreador são objeto de pedido de patente, em cotitularidade entre Nun e UFRGS, Simone não pode detalhar todas as etapas da tecnologia. Mas cita que o produto final passou por avaliações para estabelecer, entre outros aspectos, as doses mínima e máxima de utilização em cosméticos, além de análises para confirmar a ausência de metais pesados e testes microbiológicos. Cada lote produzido também passa por ensaios de controle de qualidade.
Uma característica considerada especialmente interessante é que o Nunlive possui ação autopreservante. Isso significa que não é necessário acrescentar um insumo específico para que o bioativo se mantenha durante o período de validade.
A tecnologia já encontra aplicações comerciais. Segundo Simone, há uma empresa que utiliza o Nunlive na fabricação de outra matéria-prima, que é exportada para mercados como Estados Unidos, Europa e Indonésia. No segmento voltado diretamente ao consumidor, a Nun possui a marca Beorah, responsável pelo Nanoadapt, que utiliza o Nunlive em versão nano.
No mercado B2B, destinado às indústrias cosméticas, a empresa também conta com a Greenact, distribuidora de São Paulo que comercializa o Nunlive com exclusividade para a indústria cosmética brasileira.

Um grande volume que precisa ser aproveitado
A importância ambiental do projeto ganha dimensão quando se observa a quantidade de bagaço gerada pela olivicultura. Segundo Simone, o bagaço corresponde a cerca de 85% a 90% do que é colhido da azeitona, enquanto o azeite representa aproximadamente 10%. Considerando que, neste ano, foram produzidos mais de 1,4 milhão de litros de azeite, o volume de biomassa resultante é muito maior do que o produto final destinado ao consumo.
O descarte inadequado também pode trazer consequências ao solo. Por isso, os produtores precisam realizar processos de compostagem para destinar o material “Conseguirmos reaproveitá-lo de alguma maneira é muito mais benéfico para o meio ambiente”, afirma Simone, ressaltando que o bagaço apresenta potencial para diferentes aplicações. Além da área cosmética, existem estudos para utilização da biomassa em ração animal e em outros setores, incluindo projetos relacionados a cimento e materiais para curtimento de couro.
Sustentabilidade aliada à eficácia
Para Simone, o mercado de cosméticos naturais passou por uma mudança. A naturalidade continua sendo um dos pilares do setor, mas deixou de ser suficiente por si só. “O consumidor cansou do natural pelo natural”, observa. Na avaliação da farmacêutica, ingredientes de origem renovável passaram a ser praticamente um pré-requisito, enquanto o mercado também exige comprovação de eficácia.
É justamente nesse ponto que o projeto pretende se diferenciar: pela combinação entre uma cadeia sustentável, baseada em upcycling, origem local e rastreabilidade, e uma pesquisa científica desenvolvida ao longo de anos. “A ideia é que o cliente não precise escolher entre sustentabilidade e resultado. Ele consegue ter os dois”, afirma.

Da universidade para o mercado
A transformação de uma pesquisa acadêmica em produto comercial, porém, envolve desafios. Um dos principais, segundo Simone, é o custo da validação científica, que inclui ensaios necessários para o desenvolvimento e testes de segurança e eficácia, tanto in vitro quanto in vivo. Nesse processo, o apoio de programas públicos foi fundamental. Recursos dos programas Centelha e Tecnova, por meio da FAPERGS, ajudaram a financiar a transição da pesquisa acadêmica para o mercado, permitindo equipar o laboratório e realizar ensaios complexos.
No campo comercial, Simone aponta outro desafio: a necessidade de desenvolver uma mentalidade mais voltada aos negócios entre as fundadoras, originalmente ligadas ao ambiente acadêmico. A participação no programa BRDE Labs e a parceria com uma distribuidora fazem parte dessa etapa de aproximação com o mercado.
Há ainda o desafio de ampliar a confiança da indústria brasileira em matérias-primas desenvolvidas no país. Segundo Simone, muitas empresas ainda recorrem a ativos importados, mesmo diante de custos de importação e logística, pela chancela de grandes multinacionais.
A proposta da Nun é mostrar que a tecnologia desenvolvida no Brasil pode oferecer desempenho e segurança, com origem local, menor pegada ecológica e custo competitivo.
Outro questionamento frequente diz respeito à sazonalidade. Como a colheita da azeitona ocorre principalmente entre janeiro e abril, existe a preocupação de que uma eventual expansão da demanda comprometa o fornecimento do bioativo. Para Simone, porém, o volume de biomassa disponível no Rio Grande do Sul é suficiente para sustentar a atividade. “É um mar de resíduo”, define.
A empresa estruturou o processo para armazenar e processar o material e trabalhar com contratos de fornecimento contínuo ao longo do ano, ajustando a produção à demanda dos clientes. Assim, aquilo que antes era visto principalmente como um resíduo da produção de azeite passa a ser encarado como uma fonte de novos produtos, conhecimento e oportunidades para a cadeia da olivicultura. No encontro entre pesquisa científica, indústria e sustentabilidade, o bagaço da azeitona deixa de ser apenas aquilo que sobra e passa a representar também aquilo que ainda pode ser aproveitado.

Fonte: Mundo do Azeite de Oliva